Inteligência artificial na faculdade: ferramenta de aprendizagem ou atalho?

Inteligencia artificial
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• Professores orientam sobre usos responsáveis da tecnologia e os limites da IA na formação acadêmica

A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos estudantes e pode ser utilizada como ferramenta de apoio em diferentes etapas da aprendizagem. Revisão de textos, esclarecimento de dúvidas, síntese de conteúdos, elaboração de questões, organização dos estudos e simulação de situações práticas estão entre as possibilidades. Quando utilizada sem critérios, porém, a tecnologia pode comprometer o processo de aprendizagem e levar à reprodução de informações incorretas ou trabalhos sem autoria.

Para o professor Allisson Dunes, coordenador do curso de Ciência da Computação da Afya Unitpac (em Araguaína), a IA pode funcionar como uma espécie de tutora, auxiliando o estudante na compreensão dos conteúdos sem substituir sua participação no processo de aprendizagem. “A inteligência artificial pode ser uma excelente ferramenta de apoio aos estudos quando utilizada para potencializar a aprendizagem. O mais importante é utilizar a IA como uma espécie de tutora, que ajuda no processo de aprendizagem, e não como uma ferramenta que simplesmente entrega respostas prontas”, explica.

Entre os usos que podem contribuir para a rotina acadêmica estão a criação de questões para revisão, a explicação de conceitos em diferentes níveis de profundidade, a elaboração de exemplos e a organização de planos de estudo. A ferramenta também pode ser utilizada para analisar textos, apresentar diferentes perspectivas e simular situações, desde que o estudante mantenha uma postura ativa diante das respostas recebidas. Na prática, o professor também pode utilizar a tecnologia para criar casos clínicos, simulações, perguntas e diferentes formas de apresentar um mesmo conteúdo, tornando a aprendizagem mais dinâmica e estimulando a participação dos estudantes.

Na formação em saúde, o uso pode avançar ainda mais. A inteligência artificial pode, por exemplo, ser utilizada na criação de um avatar com o qual o estudante possa interagir, fazer perguntas, levantar hipóteses diagnósticas e discutir possíveis condutas. Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser apenas uma fonte de respostas e passa a funcionar como ponto de partida para a discussão e o desenvolvimento do raciocínio.

Um dos principais cuidados está na verificação das informações. Ferramentas de inteligência artificial podem apresentar respostas imprecisas e até referências inexistentes. Por isso, conteúdos gerados pela tecnologia devem ser conferidos em livros, artigos científicos, materiais acadêmicos e outras fontes confiáveis, especialmente em trabalhos e pesquisas. Na área da saúde, essa conferência é ainda mais importante, já que informações incorretas podem comprometer o aprendizado e, futuramente, influenciar decisões que terão consequências reais.

O uso da tecnologia também precisa respeitar as regras acadêmicas e preservar a autoria do estudante. Nesse sentido, a IA deve apoiar o desenvolvimento do pensamento e da pesquisa, mas não substituir a capacidade de análise, a compreensão do conteúdo ou a responsabilidade sobre aquilo que é produzido.

Para o professor Célio Pedreira, coordenador do curso de Medicina da Afya Porto Nacional, o avanço da inteligência artificial também transforma o papel do professor dentro da sala de aula. Mais do que transmitir informações, o docente passa a ter uma função ainda maior na orientação do pensamento e na formação crítica dos estudantes. “O professor deixa de ser apenas quem transmite informações e fortalece seu papel de orientador do pensamento. Cabe a ele ensinar o estudante a questionar respostas, reconhecer limitações, conferir referências e transformar informações disponíveis em conhecimento aplicado de maneira ética”, destaca.

Na prática, a diferença entre utilizar a IA como ferramenta de aprendizagem ou como atalho está na forma como o estudante se relaciona com a resposta recebida. Em vez de buscar apenas soluções prontas, a tecnologia pode ser utilizada para aprofundar conhecimentos, comparar informações, solicitar exemplos, questionar conceitos e até receber sugestões para aprimorar um texto. O uso é mais produtivo quando o estudante consegue questionar a resposta, compará-la com outras fontes, verificar as informações e explicar o conteúdo com suas próprias palavras. Quando apenas copia o resultado apresentado pela ferramenta, sem compreender o raciocínio ou conferir possíveis erros, a tecnologia deixa de contribuir efetivamente para a aprendizagem.

Entre as atividades acadêmicas que podem se beneficiar da IA também estão a elaboração de roteiros de estudo, a comparação de conceitos, a organização de ideias e a criação de perguntas para revisão. No caso dos cursos da área da saúde, a ferramenta pode apoiar a discussão de casos e situações clínicas, desde que as informações sejam verificadas em fontes científicas confiáveis.

Além da verificação das informações, outro cuidado importante é não inserir dados pessoais, informações acadêmicas sigilosas ou qualquer conteúdo sensível em plataformas de inteligência artificial sem conhecer as condições de uso e tratamento desses dados.

Para Célio Pedreira, o principal aprendizado relacionado ao uso da inteligência artificial é justamente a capacidade de avaliar criticamente aquilo que a ferramenta apresenta. “A principal habilidade que o estudante precisa desenvolver é o pensamento crítico. É necessário avaliar a coerência das respostas, verificar dados e referências, identificar informações duvidosas e tomar decisões fundamentadas. Na formação em saúde, essa capacidade é indispensável, porque respostas incorretas podem causar consequências reais”, ressalta.

O que acontece na faculdade prepara para uma realidade que já chegou à prática médica

A necessidade de desenvolver esse olhar crítico não está restrita ao ambiente acadêmico. Uma pesquisa realizada pela Afya em parceria com a Conexa mostra que a inteligência artificial já faz parte da rotina de 78% dos médicos brasileiros entrevistados. O levantamento, realizado entre novembro de 2025 e janeiro de 2026 com 551 médicos, aponta também que 63% deles já identificaram e corrigiram algum erro produzido por uma ferramenta de IA antes de utilizar a informação no atendimento clínico. 

“Estamos diante de uma mudança estrutural na prática médica, e os dados deixam isso claro: quanto mais o médico conhece as ferramentas de IA, mais ele é capaz de identificar suas limitações. A tecnologia já faz parte da rotina de 9 em cada 10 médicos brasileiros, e o desafio agora é garantir que essa adoção seja crítica, segura e baseada em evidências. O julgamento clínico continua sendo insubstituível,” explica Eduardo Moura, médico e diretor do Research & Innovantion Center da Afya.

Na prática médica, a tecnologia aparece principalmente como ferramenta de apoio: 74% dos médicos consultados utilizam IA para pesquisar medicamentos e interações medicamentosas, 66% para esclarecer dúvidas clínicas e 58% para buscar evidências científicas. Os dados reforçam que conhecer a tecnologia também significa compreender suas limitações e manter a capacidade de avaliar criticamente as informações apresentadas. 

Para os estudantes, essa preparação começa ainda na graduação. Mais do que aprender a utilizar ferramentas de inteligência artificial, é necessário desenvolver a capacidade de formular perguntas, confrontar respostas, verificar referências e tomar decisões fundamentadas em fontes confiáveis.

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